quarta-feira , 26 junho 2019
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Conheça a formação do Parque do Caparaó

A constante evolução do pensamento científico traz a necessidade de entender e também, claro, pode despertar a curiosidade de compreender o ambiente natural que nos cerca.

O Parque Nacional do Caparaó é uma Unidade de Conservação Federal (UC) localizado na divisa do estado de Minas Gerais e Espírito Santo. É hoje uma das principais atrações naturais da região, trazendo diversos visitantes de outros estados e até mesmo de outros países.

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O Portal dos Distritos conversou com o geofísico Victor Hugo Hott Costa, graduado em Geofísica pela Universidade Federal do Pampa – RS e pela University of Nebraska at Omaha – EUA com experiência em pesquisas geofísicas em rochas ígneas e metamórficas para explicar como se formou esta importante região.

Segundo o geofísico, a Serra do Caparaó está localizada no sul do Orógeno Araçuaí e é caracterizada por relevos alongados, íngremes e topos pontiagudos que formam um conjunto extenso de serras orientadas a Norte-Sul. Orogenia é todo processo de formação das montanhas ou cadeias de montanhas. Portanto, o Orógeno Araçuaí é o local onde ocorreu a orogenia ou orogênese.  A partir daí é possível ter em mente que a Serra do Caparaó está situada em um local que foi tectonicamente ativo e fortemente retrabalhado há milhões de anos. O início do processo de formação da Serra do Caparaó está ligado à reativação tectônica da Plataforma Brasileira quando houve a separação (rifteamento) entre as placas tectônicas Sul-americana e Africana há cerca de 150 milhões de anos.

Ainda de acordo com o geofísico, não se pode dizer que a Serra do Caparaó foi formada por um evento único e distinto. Há diversos outros eventos geológicos que culminaram na formação desta importante estrutura geológica que possui como o ponto mais alto o Pico da Bandeira, com 2890 metros de altitude, sendo o terceiro ponto mais alto do Brasil.

A separação entre Brasil e ÁfricaResultado de imagem para A separação entre Brasil e África

As placas tectônicas são grandes blocos rochosos que estão sobre uma camada de rocha mais frágil e maleável chamada Astenosfera e que se movimentam dependendo de sua dinâmica. A Terra é composta por diversas dessas placas tectônicas. Quando as placas tectônicas Sul-americana e Africana, que antes eram unidas, se separaram devido ao crescimento do assoalho oceânico, houve um imenso e extenso derramamento de lava vulcânica proveniente do manto terrestre. Hoje, esse derrame de lava pode ser visto em diversas regiões do sul, sudeste e nordeste do Brasil.

Durante a separação entre essas duas placas tectônicas, a placa Sul-americana se movimentou para oeste, enquanto a placa Africana se movimentou para leste. Em seguida, a placa Sul-americana se chocou com a placa de Nazca dando origem a Cordilheira dos Andes. Quando um evento de grande magnitude ocorre de um lado, pode afetar significativamente o que acontece do outro lado, e foi o que se desenhou. A dinâmica de formação da Cordilheira dos Andes na costa oeste da América do Sul causou um soerguimento na costa leste, onde fica atualmente o litoral brasileiro.

Formação da Serra do CaparaóImagem relacionada

Segundo o geofísico Victor Hugo, pesquisas têm mostrado que a formação da Serra do Caparaó possui sua origem ligada à reativação tectônica do evento que causou a separação entre as placas Sul-americana e Africana há 150 milhões de anos. Durante essa separação, muita lava chegou a superfície, mas também muita lava se solidificou lentamente no interior da crosta terrestre dando tempo para que os minerais crescessem o suficiente para serem reconhecidos a olho nu, formando a rocha ígnea chamada granito. Esses granitos, quando são submetidos a uma temperatura e pressão suficientemente alta para modificar (metamorfizar) seus minerais, dão origem a rocha metamórfica chamada gnaisse. São essas rochas que compõem basicamente a estrutura da Serra do Caparaó. É possível encontrar os granitos e gnaisses que foram deformados durante os movimentos dos blocos rochosos. Esses movimentos podem levar uma rocha para um local mais profundo da crosta terrestre, aumentando sua temperatura e pressão, deformando e metamorfizando a rocha. Assim como é possível que esses movimentos tectônicos podem trazer as rochas que estavam em profundidade para superfície.

As rochas do embasamento da Serra do Caparaó, ou seja, aquelas que formam a sua base que, em grande parte está em subsuperfície, são rochas remanescentes de períodos anteriores a separação entre as placas Sul-americana e Africana e que foram retrabalhadas/modificadas pelos eventos geológicos posteriores. Desta maneira, a base da Serra do Caparaó é formada por gnaisses e migmatitos (rocha metamórfica) de idade que remete ao período raciano, que compreende há cerca de 2,2 bilhões de anos.

A cobertura da Serra do Caparaó, ou seja, as rochas que estão na superfície, é formada por rochas metassedimentares, isto é, rochas sedimentares – como arenito por exemplo –  que foram metamorfizadas, formando os paragnaisses. Os granitoides, que são uma variação do granito, deformados ou não, também compõem a superfície da região. Uma rocha pode ser deformada quando é submetida a uma determinada pressão aliada a temperatura. Neste caso, ela se apresentará como uma rocha dobrada, fraturada, bandada e outros termos técnicos.

O pico da bandeira foi sendo esculpido ao longo dos milhares de anos sobre as rochas metamórficas, principalmente nos migmatitos. Esse processo levou milhões de anos e foi causado, predominantemente, pelo intemperismo e erosão causados pela chuva, vento e eventos biológicos.

Como foram formadas as cachoeiras da Serra do CaparaóResultado de imagem para cachoeiras da Serra do Caparaó

O ditado popular ‘’ Água mole em pedra dura tanto bate até que fura’’ representa a essência de como são formadas as cachoeiras. Segundo o geofísico, de um modo geral, as cachoeiras são formadas quando o rio está jovem. O soerguimento dos blocos rochosos cria vales estreitos, um caminho perfeito para o curso de um rio. A medida que a água passa pelo material rochoso, erode seu leito primeiramente na parte mais fraca da rocha. O processo é lento e dura milhões de anos que culmina na formação de uma queda d’água.  Uma pequena queda d’água já é suficiente para aumentar a velocidade e a força com que a água bate na rocha, aumentando a taxa de erosão e moldando a paisagem.

Ainda de acordo com o geofísico, é por isso que vemos as rochas em um formato arredondado nas cachoeiras do Vale Verde, por exemplo. A água é o principal agente modificador de paisagens e também das rochas, claro. Dessa maneira, quando se vê uma rocha ou serra pontiaguda, sabe-se que ela é relativamente jovem do ponto de vista geológico, pois a água ainda não a moldou para um formato mais arredondado.

Por que a água do Parque do Caparaó é gelada?Imagem relacionada

Segundo o geofísico Victor Hugo, o motivo para que a água do Parque do Caparaó ser tão gelada é pelo fato da nascente das cachoeiras estar em uma elevada altitude, como a Serra do Caparaó. A nascente nada mais é que a água subterrânea que extravasa na superfície. Naturalmente, quanto mais alto, menor será a temperatura. A água que percorre a altas altitudes perde calor e chega até as cachoeiras abertas a visitação com uma temperatura menor.

O geofísico conclui que é importante ter em mente que os processos geológicos são lentos e dificilmente perceptíveis à escala de tempo do ser humano, tendo em vista que esses processos podem levar milhões de anos para serem consolidados. Para se formar 1 centímetro de solo, por exemplo, são necessários pelo menos 10 mil anos em média. Desta maneira, sempre que olharmos uma queda d’água ou um conjunto de cachoeiras e serras como encontradas na Serra do Caparaó, podemos refletir o quão surpreendente e impressionante são os processos geológicos que moldam a nossa paisagem e que é capaz de nos oferecer um refúgio para nossa admiração.

Portal dos Distrito 

A republicação é gratuita desde que citada a fonte.

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