Haitianas abusadas por soldados da ONU contam suas histórias

Haitianas abusadas por soldados da ONU contam suas histórias
Ela tem cabelos trançados e roupas simples. Na multidão em Porto Príncipe, Martine Gestimé passa despercebida, mas ela traz um relato chocante. Pela primeira vez, uma mulher com rosto, nome e sobrenome resolve denunciar um soldado brasileiro no Haiti. À Sputnik Brasil, Martine diz ter sido estuprada por um militar do Brasil em junho de 2007.
A haitiana estudava em uma escola próxima da base em Cité Soleil, uma das favelas mais pobres e perigosas de todo o mundo ocidental. Conta que passava o dia inteiro com fome e que em determinada ocasião, um tradutor a serviço da Minustah chamado Franco se aproximou traduzindo o que dizia um militar brasileiro. Ele fez elogios, a congratulou pelos estudos dizendo “que é a única forma de mudar de vida”.
“Ele tinha a pele ‘branca, branca, branca’, cabelos negros e olhos claros. Fazia elogios, dizia que eu era bonita”, conta a haitiana. Ela passa a vê-lo sempre que sai da aula. No mesmo mês, o militar a convida para dentro da base dizendo que a daria um pacote de biscoitos. Sem comer o dia inteiro, Martine conta que deixou o material escolar em casa e foi buscar o alimento prometido.
Segundo Martine, o militar pediu que ela esperasse em um cômodo próximo à entrada da base. Voltou sem o alimento, trancou a porta e a estuprou. Envergonhada, ela guardou segredo do acontecido até se descobrir grávida um mês e meio depois. Uma amiga a sugeriu um aborto e as duas economizam em segredo por 22 dias, o dinheiro que a família lhe dava para comer durante as aulas. Só conseguiram juntar 1.000 gourdes (R$47), menos da metade do custo do medicamento abortivo vendido ilegalmente nas ruas de Porto Príncipe.
“Minha mãe percebeu que estava passando muito mal e concluiu que eu estava grávida. Ela mandou eu procurar o pai da criança, mas eu não conseguia e não contaria que tinha sido estuprada. Ela sempre disse que eu não deveria ir estudar porque era perigoso, iria me culpar”, conta a haitiana.
Martine diz que nunca reportou o aborto às autoridades por medo e por vergonha. Ela tentou encontrar o tradutor, Franco, para saber o nome do militar, mas nunca mais o viu. “Mais de uma vez eu fui dormir chorando, pedindo a Deus que matasse o bebê ou me matasse porque eu não tinha condições de criá-lo”, confessa com lágrimas nos olhos. Ashford Gestimé nasceu nas primeiras horas em 8 de abril de 2008. Constantemente humilhada pela mãe, Martine mandou o garoto para viver com o irmão dela na cidade de Delmás. Ele acha até hoje que o tio é seu pai.
Três anos depois, Martine hoje vive de favor em um cômodo de 3 m² com a tia, Jacqueline Louidor, uma amiga e uma criança. Dividem uma única cama de casal. Não há banheiros nem janelas e porcos chafurdam em uma montanha de lixo na frente do barraco. “Se eu conseguisse encontrar este homem, pediria que ajudasse meu filho a estudar. Eu não o perdoaria, mas quero que Ashford consiga ter uma vida melhor que a minha”, conta a haitiana, que diz ser capaz de reconhecer o estuprador se visse uma foto dele. Com informações do Sputnik News.

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